“Pelos cafezais com Piffer” - Por Juan Esteves
Belo e generoso o artigo escrito pelo Juan Esteves sobre meu livro Coffea, não só pelo elogio ao meu trabalho, mas principalmente pela pesquisa e dedicação demonstradas pelo autor ao escrever. Publicado originalmente no site do Fotosite, reproduzo aqui na íntegra:
“Coffea é o genérico para descrever pequenas árvores de folhas verde escuro brilhantes e bonitas, com perfumadas flores brancas, até mesmo decorativas, que dão pequenos frutos vermelhos. São perto de noventa espécies, mas, resumindo: é de onde vem o nosso popular café. Também é o nome escolhido por Marcos Piffer para resumir um trabalho de mais de cinco anos.
Piffer , arquiteto e urbanista de formação, mas fotógrafo de coração e profissão, é um nome ligado a imagem da natureza, principalmente do litoral paulista, com livros já antológicos como “Santos, Roteiro Lírico e Poético” e “Litoral Norte” (já comentado nesta coluna). Sobre este, o editor Paulo Lima já disse que é um trabalho de “mil ecologistas” e para a curadora Rosely Nakagawa, a questão do mar é simbólica, como a “origem de tudo”. Uma origem que o fotógrafo mantém e cultua com excelência.
Apesar da ligação intrínseca com o mar na vida e obra, era natural que o santista Piffer se voltasse para outra coisa essencial de sua cidade natal e de sua geração. Para quem nasceu em 1962, o aroma de café sendo torrado no centro da cidade é algo inesquecível. A chance de unir a fotografia com mais esta “afinidade eletiva” veio de um trabalho profissional para uma grande produtora de café em 2003.
Na continuidade de seu trabalho documental - normalmente confundido por paisagista - o objeto muda, mas as preocupações continuam as mesmas embutidas em seus livros anteriores. A prioridade das questões urbanas e tecnológicas versus a preservação do trabalho e da natureza ameaçada. A questão humana também se soma a beleza das imagens. Segundo o autor, são 221 mil fazendas no Brasil, de diferentes tamanhos, contabilizando no pico da safra nada menos que 14 milhões de trabalhadores braçais.
Entre final de 2003 e 2007 o fotógrafo percorreu fazendas em São Paulo, Minas Gerais, Paraná , Rondônia, Espírito Santo e Bahia, num total de 185 imagens selecionadas para o livro entre as milhares que produziu. A opção pelo “duotone” para o meio de impressão valoriza bem as imagens. O sistema usa duas cores separadas, normalmente um tom de preto e um cinza de tom quente ou frio. De difícil controle, há pouquíssimas escorregadelas no conjunto, que é muito harmonioso e coerente.
Para quem conhece um pouco da história brasileira, a cultura do café é algo bem familiar, assim como o decréscimo de sua importância nas últimas décadas. Parte pela estagnação do setor que não evoluiu como seus concorrentes, parte por problemas portuários e burocráticos e parte pelo crescimento de outras atividades. Por isso, este livro é mais que pertinente, pois não é apenas um conjunto de imagens bonitas, mas um documento inestimável a nossa história.
Eduardo Carvalhaes Jr. diretor de desenvolvimento do Museu dos Cafés do Brasil, instalado em Santos, escreve que o café contribui com pouco mais de dois por cento da nossa receita cambial. Mas, também conta que somos o segundo maior consumidor do mundo, “bebemos 40% do café servido no planeta” e o maior produtor e exportador. Na busca destes registros, Piffer fotografou o dia-a-dia nas regiões cafeeiras mais tradicionais e certas curiosidades como em Planalto da Conquista, BA, onde depois de colhido é levado a mais de 100 km para ser beneficiado, ou os agricultores de Rondônia, região originalmente de floresta amazônica, instalados no estado desde a década de 70.
Dividido nas etapas da cultura cafeeira o primeiro capítulo, claro, é o plantio. A seleção das sementes, a produção das mudas, belas paisagens realçadas pelos contrastes, mostrando os sulcos rumo ao infinito. Registra-se toda a dedicação de homens e mulheres. Não vemos ai famintos bóias-frias e sim sorrisos dignos, honrados pelo trabalho. Na colheita, mãos calejadas, mas honestas arrancam os pequenos frutos. Mulheres pegam no pesado como os homens, ajoelhando-se nos seus trajes adaptados ao esforço. Em seus retratos a dignidade está mais que presente. Até mesmo o prazer de serem fotografados ali no meio da vastidão verde, vertida para pretos, brancos e cinzas.
Por fim o Benefício, onde uma frase resume o esforço: “Tem que mexer bem, senão não fica bom”. Falas pinçadas pelo fotógrafo em suas viagens. O beneficiamento do café tem que ser rápido, caminhões chegam a todo o momento. “Uma pressa organizada” conta Piffer. Entre as etapas, um registro épico no formato “salgadiano”, onde nuvens carregadas de cinzas rivalizam com a terra escurecida pelas tonalidades negras e onde o Homem e Natureza têm papel de protagonistas.
Documentar o ser humano e sua obra é um trabalho tão bonito quanto documentar as praias e mangues que caminham para o perecimento. Ambos são vítimas da modernidade, da economia descontrolada, da insensatez dos empresários gananciosos. Ambas são vítimas da inexorável evolução capitalista que troca mãos por máquinas e pensamentos frescos por clichês. Felizmente no meio do caminho, parafraseando Drummond, há um fotógrafo chamado Marcos Piffer que não deixa a gente esquecer-se disso.”
Juan Esteves é fotógrafo e crítico de fotografia. juan_esteves@hotmail.com
Publicado em Na Mídia, Projeto COFFEA |
