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Jornal da Orla

Segunda-feira, Mar 3, 2008 por admin

 O Jornal da Orla na última edição do Guia de Verão deste ano publicou uma entrevista comigo. Perguntas muito interessantes formuladas pelo José Fidalgo acerca da cidade de Santos, em matéria de capa e página inteira. Segue abaixo a íntegra da entrevista.

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 - O que motivou você a relançar o livro “Santos - Roteiro Lírico e Poético” e o que representam as 17 fotos inéditas inseridas nesta última edição?

O livro se encontrava esgotado já há algum tempo, mas a procura por ele sempre se manteve constante. Acredito que neste tempo (de 1997 a 2007) ele se transformou em algo mais que um livro de fotografias, se tornando uma referência do espaço urbano daquela época.
Fiz questão de colocar 17 imagens inéditas, para enriquecer ainda mais o conteúdo. Desta maneira pude complementar alguns espaços que a seqüência original de imagens possuía. Além disso, atualizei o projeto gráfico, inseri um mapa com a localização das fotografias, e fiz questão de ter um texto escrito por mim, fazendo um balanço destes 10 anos. Tudo isso para marcar ainda mais este período como uma edição especial.

- Você acha que Santos mudou muito nestes últimos 10 anos, quando foi lançada a primeira edição do livro? Você pensa em fazer outro trabalho com o mesmo enfoque no futuro?

Foi um período de muitas transformações, algumas positivas e outras negativas. A principal grande alteração foi a do gabarito dos edifícios. Já podemos sentir o reflexo deste “boom” imobiliário, com o aumento do número de veículos e agressividade no do trânsito. Além da desproporção dos edifícios com o entorno e com a escala humana. Também perdemos o terreno da antiga Sorocabana. Numa localização privilegiada onde a cidade deveria ter um grande parque público, nos moldes do Ibirapuera, temos hoje anúncios de papel higiênico e molho de tomate, e uma grande área asfaltada.
Por outro lado também neste período, o Porto foi finalmente privatizado, resgatamos o edifício da Bolsa de Café, e o Teatro Coliseu. A construção da ciclovia, que igualmente levantou polêmicas, também foi um ganho para a cidade.
Meu próximo projeto com relação à Santos é um livro em cores voltado para o patrimônio construído. Um grande catálogo dos edifícios históricos mais significativos, sem menosprezar obviamente o enfoque humano, que é o forte de meu trabalho.

- Tem gente que acha que as cidades têm alma. Você acha que consegue captar a alma de Santos através das lentes da sua máquina?

Meu trabalho mostra alguns aspectos que sem dúvida fazem parte das características urbanas da cidade, mas são só aspectos físicos. Quando vemos aquele conjunto de imagens da nossa cidade, acho que gostaríamos que ela realmente fosse daquela maneira, mas não é. Como muito bem falou o Maestro Gilberto Mendes na introdução do meu livro, “aquelas imagens nos fazem sonhar com uma Santos que poderia ter sido”. A verdadeira alma da cidade tem a ver como seus habitantes se relacionam entre si, e principalmente com aqueles mais necessitados.

- Não são poucas as pessoas que afirmam que suas fotos mostram uma cidade que, até então, parecia escondida, tal os ângulos inusitados que as suas imagens revelam. Isso é resultado de uma abordagem técnica premeditada ou vai acontecendo naturalmente durante o processo de criação?

O poeta Paul Verlaine disse uma vez que “o fotógrafo é aquele que empresta os olhos”. Não acredito que a minha fotografia tenha ângulos inusitados, pelo contrário os ângulos são bem banais, e é isso o que me atrai, a busca pelo cotidiano, pelo simples. As imagens mostram uma cidade bem próxima, mas que pela correria do dia-a-dia não temos condições de reparar. O fato das imagens serem em Preto e Branco, a luz e a abordagem é que nos fazem ver de uma maneira diferente, e isto sim é a marca da minha fotografia.
Fico lisonjeado em fazer com que as pessoas conheçam mais a sua cidade através das minhas fotografias, pois sempre acreditei que para as pessoas quererem preservar algo, é preciso conhecer e admirar primeiro.

- Qual são as diferenças básicas entre seu trabalho sobre Santos e seus outros dois livros, “Caetano de Campos” e “Litoral Norte”?

Todos os meus trabalhos pessoais estão sempre ligados à alguma forma de preservação ou engajamento. O livro “Santos”, editado originalmente em 1997, foi fruto da visão de Arquiteto e Urbanista que sou de formação. Poderíamos considerá-lo como um grande catálogo do que deveríamos admirar e resguardar na cidade. Estão lá todos os elementos: os edifícios históricos, o espaço entre eles, os paralelepípedos, o meio ambiente tanto da praia como no continente, as árvores, e principalmente as pessoas.
O “Projeto Litoral Norte”, que foi documentar a região durante 10 anos, foi inspirado na música “Sabiá” do Tom Jobim e do Chico Buarque. Em determinado momento a música diz que “vou voltar e deitar à sombra de uma palmeira que já não há”. Eu possuo uma ligação afetiva muito forte com o nosso litoral norte, e muito me incomodava ver toda a transformação que vinha acontecendo no final da década de 70 e que se prenunciava desenfreada e caótica nos anos 80. O que eu fiz foi fotografar de uma maneira bem pessoal e emotiva as praias, montanhas e mangues como se fosse um santuário, e assim preservar pelo menos na memória, várias “palmeiras” que já não existem mais.
O livro “Edifício Caetano de Campos” trata exclusivamente desta construção histórica no centro da cidade de São Paulo. Foi uma encomenda da Secretaria de Estado da Educação. Naquela época todo o prédio havia sido restaurado, e havia um receio - que não se concretizou - que o governo que estava por vir desfizesse ou não valorizasse o edifício. Produzi então um documento visual, desta vez com o intuito de registrar um momento positivo.

- O preto e branco é essencial para captar as imagens que você quer registrar?

O preto e branco foi fundamental na formação da minha fotografia. Os meus principais ensaios pessoais são todos em PB, e por causa disso passei horas, dias e meses no laboratório fotográfico, onde eu mesmo processava todo o material. Isto faz com que você adquira paciência e um conhecimento muito profundo da técnica fotográfica. Por outro lado o PB traz um distanciamento da realidade, rompendo com as referências da cor, e nos permitindo assim divagar e refletir ao ver uma imagem. O PB faz também com que as imagens sejam mais pungentes e eloqüentes, atingindo com mais facilidade o coração das pessoas.

- No momento, você está trabalhando em algum novo projeto?

Fotografei nos últimos seis anos as pessoas nas lavouras de café por todo o Brasil. Fiz mais de 23 viagens por vários Estados e regiões produtoras, e o fruto disso é o livro “Coffea” que será lançado oficialmente em maio. O enfoque é centrado nas pessoas e no trabalho delas que ainda estão ligadas à terra, dependendo dos caprichos da natureza para produzir uma das grandes riquezas do Brasil.

- O subtítulo “Roteiro Lírico e Poético” do livro sobre Santos já era uma idéia inicial ou surgiu em função do resultado final das fotos?

Eu sempre quis fazer o livro como um grande roteiro pela cidade, um grande percurso que as pessoas percorreriam, e ao mesmo tempo descobririam a cidade. Então fiz com que as imagens e os capítulos se interligassem espacialmente. O livro começa de fora de cidade, no mar, e se aproxima até chegar à praia. Da praia vamos aos bairros, e dos bairros ao centro histórico. Dali chegamos ao porto e finalmente ao continente, fechando com uma imagem que mostra novamente o mar. A poesia e o lirismo se encontram nas próprias imagens.

- Ao comentar esse livro, em uma das introduções, o maestro Gilberto Mendes, citando o escritor inglês Joseph Conrad, afirma que você é “um dos nossos”, numa referência aos membros das “comunidades dos homens do mar”, a definição que ele dá às pessoas que têm uma profunda ligação com o espírito da cidade de Santos. Como você encara isso?

Foi uma honra ter um texto do Maestro Gilberto Mendes na abertura de meu livro. Não podemos esquecer a ligação da cidade com mar, da praia, do porto, dos pescadores, dos trabalhadores do mar. Nós que aqui nascemos e fomos criados junto à praia, temos sem dúvida minha ligação muito forte com o mar, e conseqüentemente com a cidade também. Acredito que isso influencia nossa noção de tempo e espaço, e nossa maneira de criar e ver criticamente o mundo. Além disso, o mar é também a grande referência espacial da nossa cidade.

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